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Uso Medicinal da Maconha? Ou Cannabis??

Fonte: freepik

Atualmente, muito tem se falado sobre o uso médico de “maconha”. Defensores e acusadores têm se “encontrado” frequentemente, cada um com seu arsenal de argumentos.

Inicialmente, é necessário ter claro alguns conceitos.

Maconha. Nome dado a variedades específicas da Cannabis, com  altas concentrações de THC (substância responsável pelo efeito psicotrópico, comumente chamado de “brisa”, “barato” e outros). A Maconha encontra-se listada entre as substâncias consideradas “drogas de abuso”. É um grupo composto por substâncias com capacidade de alterar o funcionamento do Sistema Nervoso Central, além de levar à dependência.

A maconha, especificamente, é usada na forma de cigarro, ou seja, fumada.

Cânhamo. O termo aqui é usado para as variedades de Cannabis que contenham até 3% de THC (a substância responsável pelo efeito psicotrópico). Essa concentração de THC é insuficiente para o efeito que as pessoas querem quando usam a Maconha com objetivo “recreativo”. Em outras palavras, não dá o “barato”. Fazendo uma (analogia simplória) bastante simples, seria o equivalente a uma cerveja “sem álcool”.

Então, vamos deixar claro o seguinte, caro leitor: Nós, e um grupo enorme de pessoas entre os “defensores”, estamos nos referindo, e pleiteando, a regulamentação do uso dos subprodutos medicinais derivados do cânhamo (óleo, pomada, spray, entre outros).

Não há interesse, como regra, da regulamentação do uso da Maconha como droga de abuso, principalmente entre os profissionais da saúde que estão um pouco mais familiarizados com o assunto. O THC também têm propriedades terapêuticas e desde que um médico habilitado se responsabilize e prescreva seu uso medicinal, não vemos problemas em regulamentar produtos com THC em maiores concentrações. 

À frente, voltaremos a este ponto.

Uma outra comparação singela, para tentar esclarecer mais o ponto. Do veneno da jararaca é extraída uma substância utilizada no tratamento da hipertensão arterial, por exemplo. E do próprio veneno (das cobras em geral) é obtido o soro antiofídico. Mas vamos nos concentrar no exemplo da jararaca. Poderíamos dizer que o que se busca é a regulamentação de uso da substância específica que atua no controle da hipertensão arterial, e não no veneno todo da cobra!

É importante ter isso muito (explicado e explícito) claro, pois parece que de forma deliberada certos grupos tentam misturar as coisas. Lembra que deixamos um ponto de retorno logo acima? Aqui estamos reforçando. Voltaremos a ele em breve.

Sobre os canabinóides (que seriam o equivalente à substância capaz de controlar a pressão arterial, no veneno da jararaca), há relativamente pouco tempo sua ação e interferência no funcionamento do Sistema Nervoso e em todos os sistemas fisiológicos  está sendo esclarecido. De que forma? Inicialmente separando a parte do todo, isolando as substâncias específicas. Em seguida, pesquisando suas potenciais ações no organismo. Adiante, a partir de estudos controlados, com uso em pacientes e observação dos resultados. 

Além do tempo reduzido, frente aos demais medicamentos, também é necessário lembrar que a fonte de recursos para esses estudos é bastante restrita.

Some-se a isso o preconceito natural por ser derivado “da maconha” (na verdade, do cânhamo!).

E nesse processo de estudos, nossos colegas precursores, têm observados melhoras espantosas, que não eram atingidas com a medicação convencional.

Um pequeno parênteses aqui. Os canabinóides (ou seja, os derivados do cânhamo) foram estudados e têm sido utilizados em casos graves, ou de doenças degenerativas (isto é, sem perspectiva de cura), ou em pacientes que não respondem à medicação convencional. Tome-se como exemplo casos em que o paciente apresentava dezenas de crises convulsivas ao dia, mesmo em uso rigoroso da medicação convencional, e que passaram a ter 2-3 crises, ou até nenhuma crise, por alguns dias. 

Ou pacientes com dores crônicas, cuja vida passa a ter alguma qualidade, após a introdução dos canabinóides. Fim do parênteses.

O que os grupos de defensores buscam é garantir aos pacientes que possam se beneficiar, ou daqueles que não tem mais o que fazer até o momento, a possibilidade de tentar algo diferente, garantindo assim, alguma ou total qualidade de vida para eles e seus familiares e/ou responsáveis! Ninguém será obrigado a usar! E a propósito, qualquer tratamento, para ser introduzido, necessita da autorização e consentimento do paciente ou de seu responsável. Todo e qualquer tratamento. Ponto.

Mas então, porque toda essa discussão sobre autorização ou não para plantio? Por que não utilizar os canabinóides sintéticos (da mesma forma que eu não preciso ter jararaca em casa para tratar da hipertensão!)?

Aqui, caro amigo leitor, as coisas começam a ficar um pouco nebulosas. Algumas considerações.

Primeiro, técnica. O óleo natural (ou não industrializado) contém uma combinação de várias substâncias, que se potencializam. Óleos isolados, como o Mevatyl, disponível nas farmácias brasileiras, possuem CBD e THC isolados que depois foram juntados. Os óleos sintéticos (industrializado) são substâncias que possuem os mesmos efeitos do CBD ou do THC e estão disponíveis nos Estados Unidos . Entretanto, os diferentes canabinóides, em associação, se potencializam – tem efeitos melhores, com menores doses.

Segundo, financeira. O processo de industrialização é muito mais caro. Pensemos juntos. Vamos partir de uma substância composta, separá-la em partes, e ter um efeito menor que no estágio anterior. Em termos práticos, em outubro de 2019, o tratamento com a medicação industrializada, que precisa ser importada, pode custar entre dois mil e cinco mil reais por mês. Com a  substância “natural”, estes valores caem para duzentos a quinhentos reais.

Terceira, “ideológica”. As aspas se devem ao fato de não estar tão claro quais seriam os motivos “dificultadores” de diálogo.

Mas eu não preciso ter jararaca em casa! Realmente, não precisa. Mas imagine que fosse possível, de alguma forma, sem depender de “atravessador”, ser possível utilizar o medicamento derivado do veneno da jararaca, mais eficiente, e por um décimo do valor. Que tal?

E mais. A planta, diferente da cobra, não te ataca. Não é venenosa; não põe você e sua família em risco.

Mas eu não quero ter que “plantar” meu remédio! Sem problemas. Por isso a busca pela regulamentação, de uso e produção. Mas, considerando o Direito Individual e a liberdade de escolha, alguns grupos defendem o autocultivo, ou seja, plantar e produzir seu remédio em casa, que pode ser tanto de cânhamo como de maconha, duas formas diferentes da mesma cannabis. 

Para finalizar, aqui voltamos àqueles pontos que ficaram para trás. De forma cristalina, neste vídeo, Dra. Ana Hounie tece alguns comentários sobre os argumentos do grupo contrário à possibilidade de regulamentação do uso de derivados do cânhamo.  

Reprodução da resposta da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis ao documento publicado pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria, intitulado “Dez coisas que precisam saber sobre Cannabis”.

Resumindo, em 77 caracteres:

Um grupo é contra o uso recreativo da maconha. Outro é a favor do uso clínico dos canabinóides.

Agradecimento especial à Geize Stella, Ana Hounie e Gerfesson, que contribuíram com o texto.

O espaço dos comentários está à disposição para uma discussão educada sobre o assunto. Não há qualquer problema em discordar de ideias. Mas é essencial fazer uso do respeitoeducação e civilidade.

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